O que não cabe na estante

Fui ajeitar um vaso e acabei pensando nos livros, na estrelinha feita pela Manuela e nas histórias que continuam muito além da última página.

CRÔNICAS

Angela Brudeck

10/20/20264 min read

Eu só queria ajeitar o vaso, ele é dourado, bojudo, um pouco metido a importante. Fica no meio da prateleira, entre os livros e um quadro do Belchior. Às vezes acho que, se alguém lhe perguntasse, ele diria que a estante é dele. Não é. Embora ocupe um espaço considerável.

Ao lado, uma porção de livros. Uns mais altos, outros fininhos. Capas coloridas, outras nem tanto. Todos espremidos naquele espaço que, quando foi pensado, parecia mais do que suficiente. Há uma espécie de otimismo quando a gente instala uma prateleira. Mede a parede, escolhe a altura, olha aquele espaço todo e pensa: pronto, agora cabe.

Não cabe. Nunca cabe.

Na ponta da prateleira, uma estrelinha amarela de crochê. Foi a Manuela que fez. Gosto dela.

E sei bem por quê.

Representa a esperança em tempos tão sombrios.

Talvez pareça exagero depositar tanta coisa numa estrelinha de crochê. Mas esta ali para lembrar que gente precisa manter a esperança. Nem que seja pendurada por um fio. E ela tem absolutamente tudo a ver com aqueles livros.

Tirei uma foto. Fiquei olhando. E tive uma ideia: fazer uma homenagem aos autores da Gog. Colocar seus nomes ao redor da estante, como se fosse uma página de jornal. Uma manchete aqui, algumas colunas ali, fotografias dos livros, nomes dos autores. Afinal, se tem uma coisa de que precisamos, é de notícia boa.

E notícia boa apareceu.

O livro da FêCris Vasconcellos, As crises do jornalismo: entre a notícia e o algoritmo, está entre os finalistas do Prêmio AGES, na categoria Não Ficção. Fiquei feliz. Muito.

Não é a primeira conquista de um livro da nossa editora. Fotossíntese, da Sinara Foss, já esteve entre os finalistas do Prêmio Açorianos. Ninguém esquece um rosto desses, do Rodrigo Alfonso Figueira, recebeu o Prêmio AGES. E Diário da castração, do T. S. Marcon, conquistou o Prêmio Vivita Cartier.

Mas a notícia da FêCris me fez olhar novamente para aquela fotografia.

Curioso.

Um livro que investiga as crises do jornalismo acaba se tornando notícia. E eu, que só queria ajeitar um vaso, já estava mentalmente diagramando um jornal.

Fiquei pensando na quantidade de acontecimentos que precisam se suceder até um livro chegar àquela prateleira. Porque ele não nasce livro. Antes, é uma inquietação. Uma ideia que não sossega. Uma história que alguém precisa contar, mesmo sem saber se haverá quem queira ouvir.

Depois vêm as palavras, as dúvidas, as páginas reescritas. Uma frase que não funciona. Outra que parecia maravilhosa ontem e hoje já não parece tanto. As conversas que não acabam, os detalhes que ninguém vai perceber, mas que precisam estar certos mesmo assim. Uma capa que finalmente dá rosto ao que, até então, existia apenas na imaginação de alguém.

E o livro fica pronto.

Pronto? Não sei.

Tenho minhas dúvidas sobre essa história de que um livro fica pronto.

Ele pode estar impresso, encadernado, com ISBN, ficha catalográfica, código de barras e tudo o que a burocracia exige. Aliás, é impressionante como uma coisa tão poética pode precisar de tantos números. Mas basta alguém abrir a primeira página para começar outra história.

Os livros têm uma vida que escapa de quem os escreveu. E, felizmente, de quem os publicou também.

Olho novamente para a estante. Ali estão algumas das histórias que ajudamos a colocar no mundo. Outras não aparecem na fotografia. Algumas talvez nem caibam mais naquela prateleira.

E ainda há os autores.

Ah, os autores!

Pessoas tão diferentes, com maneiras tão particulares de olhar para o mundo, que seria impossível reuni-las sob qualquer definição que não fosse justamente esta: pessoas que têm alguma coisa a dizer. E que, por alguma razão, decidiram transformar isso em livro.

Não é pouca coisa.

Fiquei pensando que, quando escolhemos publicar uma obra, não estamos apenas escolhendo um texto. Estamos, de alguma maneira, dizendo a alguém: eu também acredito nessa história.

Pode parecer pouco. Não é.

Principalmente num mundo em que tudo parece precisar ser rápido, rentável, imediatamente compreendido e, de preferência, resumido em quinze segundos. Quinze segundos!

Um livro pede outra coisa. Tempo. Atenção. Silêncio, às vezes. E alguma disposição para sair diferente da maneira como se entrou.

Volto à fotografia. Belchior continua lá, com aquela frase que parece ter sido escrita para nos lembrar do que realmente importa:

Amar e mudar as coisas me interessa mais.

Olho para os livros. Penso na FêCris, na Sinara, no Rodrigo, no Marcon. Nos nomes que estão naquela estante e nos que ainda não estão. Nas histórias que chegaram até nós e nas que ainda vão chegar.

E me ocorre que uma editora também pode ser isso. Um lugar onde as inquietações dos outros encontram abrigo antes de ganhar o mundo.

Não sei se o Belchior concordaria. Mas gosto de pensar que sim. E, se não concordasse, certamente teríamos assunto para uma boa conversa.

No fim, deixei o vaso onde estava.

Foto da minha prateleira com os livros da Editora Gog Ideias, o vaso dourado e o quadro do Belchior com a frase: Amar e mudar as coisas me interessa mais.