Ah, esse duende!
Uma crônica sobre música, duende e aquilo que não se vê — mas atravessa o corpo, transborda e nos revela.
CRÔNICAS
Angela Brudeck
8/21/20264 min read


Tudo começou com um convite
Até pensei em não ir. Estava chovendo.
Fui.
Peguei o ônibus das 16h31, pontualmente, como dizia o aplicativo da operadora de transportes de Porto Alegre. Desta vez ele acertou.
Desci no Mercado Público e encontrei o André no centro, como combinado. Quer dizer, não exatamente no centro, porque no centro está o Bará e ninguém vai sair pisando em cima do Bará só para cumprir com precisão um ponto de encontro. Quando me viu chegando, abriu um sorriso, me recebeu com um beijo e disse:
— Que belezura!
Foi então que conhecemos uma padaria nova.
Nova para nós.
— Pior que ela está aqui acho que desde 1853 — disse o André, também surpreso por nunca ter entrado ali.
Acho que era 1853. Pode não ser. Depois confiro.
Mas é curioso isso. A gente fica refém do próprio entorno. Mais do que isso: fica refém da rotina. Casa-trabalho, trabalho-casa. Passamos pelos lugares sem realmente passar por eles. O mundo está ali há cem, cento e cinquenta, talvez cento e setenta anos, e nós simplesmente atravessamos a rua.
Ultrapassei a catraca da padaria e retirei uma comanda de plástico duro, grosso, um pouco maior que um cartão de crédito, mas muito mais robusta, como se aquela padaria levasse muito a sério a possibilidade de alguém perder a comanda.
Estava lotada.
Um balcão imenso, circular, pessoas sentadas em bancos altos, conversando, comendo, bebendo suas bebidas favoritas. Pedi uma coxinha. O André foi atrás de um bolo. Não estava para salgado. Primeiro pensou no chocolate, mas acabou entregando o coração ao encharcado de coco.
Acho que é esse o nome.
Na minha cidade chamamos de toalha felpuda.
Mordi a coxinha.
Devia ter mergulhado no encharcado de coco.
Mas a toalha felpuda ainda é melhor.
Passamos na editora para fazer um tempo. O lançamento era só às sete. Conseguimos chegar atrasados mesmo assim, perto das sete e meia.
Antes de entrar, o autor e seus convidados já falavam para o público lá dentro.
Se me perguntarem agora o que diziam, não faço ideia.
Só sei que eu teria ficado ouvindo por três horas.
Talvez mais.
Quando entramos, conheci pessoas interessantíssimas. Um dos professores preferidos do doutorado do André estava lá. Em algum momento discordamos sobre capas de livros. Ele não gosta das duras. São ótimas para ficar em pé na estante, disse, ou alguma coisa parecida.
Eu amo capa dura.
Uma joia!
E então apareceu o professor preferido do professor do André.
Noventa e não sei quantos anos.
Mas a idade era a informação menos importante nele. O homem tinha uma vitalidade que parecia não caber no corpo. O duende se jogava para fora pela risada alta, pelo carisma, pela maneira de falar, de ocupar o espaço.
Na hora eu só achei fascinante.
Depois entendi.
Houve também a história de um painel — o artista disse que ficaria na Casa de Cultura ou ao lado dela; mais um fato que preciso verificar — e uma explicação sobre pintura em painel de alumínio.
O alumínio é liso.
Primeiro precisa receber um jateamento para receber a arte.
Enquanto ele falava, imaginei imediatamente a pintura de um carro: aquela superfície fosca antes da tinta lisa, brilhante. Depois é preciso proteger, cobrir, envernizar, porque a luz destrói as coisas.
Aqui em casa, a fotografia da formatura da Manu, com a banda do André, já foi atacada pelo sol.
A luz também sabe apagar.
E então surgiram as latas de alumínio.
Outro casal contou que começou a furá-las de maneiras diferentes e a experimentar raios X através daqueles pequenos orifícios. A luz atravessa, rebate, transmite, reflete — não sei exatamente.
Sei que ele já tem um armário cheio de latas. Pelo menos foi o que nos contou sua mulher.
Por enquanto, testaram só nas pequenas.
Tipo Coca-Cola.
E eu não sabia ainda, mas talvez tudo naquela noite estivesse falando da mesma coisa.
Daquilo que atravessa.
Daquilo que a gente não vê chegando.
Daquilo que toca uma superfície e, de repente, produz outra coisa.
Hoje acordei e puxei para perto da cama o livro de capa vermelha e dura.
Levantei e levei o livro comigo.
Vinte páginas depois — Benhur Bortolotto bem que tinha me avisado — fui ouvir Bizet. Depois veio a siguiriya.
E então Maria Callas cantando Casta Diva, de Bellini.
Foi aí.
Fui inundada.
Arrebatada.
Transbordada.
Estou há horas assim.
Como as cataratas de Foz do Iguaçu — e nem sei se essa comparação dá conta, porque cachoeira pelo menos sabe para onde está caindo.
Eu não sabia.
Como fiquei quarenta e cinco anos sem ouvir Maria Callas?
Maria Anna Cecilia Sofia Kalogeropoulos.
Maria Callas.
La Divina.
Meu Deus.
Você é minha alma todinha.
Uma fênix que arde, morre no próprio fogo e volta viva, cheia, repleta, reluzente.
Eu não tenho palavras capazes de definir o que aconteceu quando ouvi aquela voz.
Meu coração acelerou até subir para a garganta, da garganta para o cérebro, do cérebro para algum lugar que já não era exatamente o corpo. A voz foi se entranhando em mim até não haver mais para onde ir e então se derramou pelos olhos.
E, de repente, siguiriya.
Um soco.
Onde eu estava?
E, ao mesmo tempo:
eu já estive aqui.
Não sei onde.
Não sei quando.
Mas minha alma sabe.
Reconhece.
Pertence.
Alguns dias antes eu tinha sonhado com seres celestiais flutuando. Foi lindo. Acordei impressionada com aquilo, mas não estava completo.
Hoje entendo o que faltava.
Música.
Porque talvez, se Maria Callas estivesse cantando naquele sonho, eu não teria acordado pensando que sonhei com seres celestiais.
Eu teria acreditado que tivera uma experiência divina.
E pensar que tudo começou porque estava chovendo e eu quase não fui.
Uma chuva.
Um ônibus das 16h31.
Uma padaria que talvez esteja ali desde 1853.
Uma coxinha.
Um bolo de coco.
Um professor de noventa e não sei quantos anos.
Latas furadas.
Raios X.
Um livro vermelho.
Lorca.
Callas.
Há dias em que a vida parece inteiramente organizada pelo acaso.
E há outros em que a gente desconfia que não era acaso coisa nenhuma.
Ah, esse duende.
Jogo e teoria do duende, de Federico García Lorca. Edição, tradução, notas e posfácio: Benhur Bortolotto. Editora Bortolotto.
(© 2026 Angela Brudeck. Todos os direitos reservados.